quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

"Biologia como Ideologia" - Richard Lewontin

O autor da obra Biologia como ideologia Richard Lewontin propõe-se a uma difícil tarefa, eliminar dos nossos olhos um véu que esconde os erros da Ciência. A Ciência apresenta-se como uma ciência de certezas, mas a verdade é que ela própria acarreta graves erros, que faz com que a nossa confiança se deixe influenciar por falsas e perigosas ideologias: a sobrevalorização da Ciência; a total responsabilidade dos genes; noção errada de causa; a sociobiologia; o ADN como o código da essência humana. Estas falsas ideologias praticadas pela Ciência são referidas por o nosso autor em separado, cada uma em um capítulo.


O primeiro capítulo “cepticismo razoável” remete-nos para um erro que está presente no nosso dia-a-dia, que deixamos ocorrer sem qualquer oposição fala-se por isso do erro que cometemos ao sobrevalorizar a Ciência face a outras ciências. Lewontin afirma que a Ciência é uma instituição social, e como tal deve implicar um maior envolvimento dos indivíduos com o âmbito da Ciência, de forma a evitar-se o distanciamento que se denota. O indivíduo deve ter consciência do desenvolvimento da ciência, mas também dos riscos que o seu desenvolvimento acarreta. É um erro do ser humano agir de diferente modo com as diferentes ciências, pois todas deviam estar ao mesmo nível. A ciência deve ser tratada de modo igualitário com outras ciências, mesmo que na prática tal não ocorra, esse é o espírito que deve prevalecer nos indivíduos.

A Ciência devido à sua função de manipulação do mundo material constrói um conjunto de técnicas, práticas, etc., que produzem novas formas de encarar a vida, é esta função que acaba por provocar o distanciamento entre Ciência e indivíduo. O indivíduo entende que se trata de um conhecimento obscuro, na medida em que não conhece o progresso que ocorre até se alcançar o conhecimento proposto. Uma segunda função da Ciência é a de esclarecimento, isto é explicar o porquê das teorias serem como são. O que mesmo assim não permite a aproximação que devia existir entre indivíduos e Ciência, na medida em que fica muito por explicar sobre o processo de evolução de uma teoria.

No segundo capítulo “Estará tudo nos genes?” a tese defendida é que os genes não são os únicos responsáveis pelo que pode acontecer com o nosso organismo. Para tal, Lewontin afirma que os genes não permitem um conhecimento completo sobre o modo como o nosso organismo reage a alguns factores. Existem elementos externos, o ambiente, que tem grande influência no modo como a nossa vida decorre. O nosso desenvolvimento depende dos genes, mas também do ambiente, dado que o nosso organismo sofre alterações ao longo dos tempos. Lewontin rejeita o determinismo genético. As suas ideias base são: não existe nada nos genes que possa determinar o que acontecerá ao nosso organismo, as nossas variações (a nível individual) são resultado dos genes e do ambiente que nos rodeia, com o qual temos uma interacção. Não se podem considerar os genes responsáveis pelo nosso destino, se assim fosse estaríamos condenados desde o nosso nascimento. Seria problemático colocar toda a responsabilidade nos genes, pois assim teríamos de aceitar que se provimos de uma família pobre estamos condenados a ser pobres, dado que está nos genes.

Lewontin no seu terceiro capítulo “Causas e efeitos” remete-nos para a problemática da noção de causalidade, a noção presente neste capítulo é empobrecedora. A causalidade presente refere-se ao evento natural, nele ocultam-se as causas sociais, na medida em que são as mais complicadas de serem explicadas, são causas que só estatisticamente obtêm significado. Comete-se o erro de considerar que só na medicina se encontram as causas, quando estas estão por todo o nosso meio social, cultural, ideológico. A Ciência que se define como portadora da verdade, tem como base uma definição de causa errada. Como se justifica tal erro? A resposta fica em aberto. O termo causa que é usualmente usado na Ciência é um erro, para se usar esse termo correctamente dever-se-ia também remeter para o ambiente. A noção de ambiente aqui usada, por Lewontin refere-se aos elementos circundantes da nossa sociedade.

A noção errónea de causalidade presente na Ciência torna-se numa perigosa ideologia, dado que a noção vida rege-se somente com base nas “causas” que a Ciência nos identifica, assim dificilmente levamos em conta no nosso dia a dia o ambiente em que nos encontramos, a evolução histórica e a Ciência não deve ser considera a fonte fidedigna das causas de doenças.

No capítulo quatro “Uma história em manuais” o autor visa defender a tese que o nosso ADN não engloba tudo o que existe (a saber) sobre a nossa existência humana. Para tal vai defender os aspectos que passo a elucidar, a nossa existência humana têm uma base histórica, evoluímos num tempo, que possui características diferentes das presentes em tempos anteriores, ou posteriores, assim o meu organismo não será o mesmo do tempo anterior ou posterior, evoluímos com base em recursos ilimitados. O âmbito histórico permite compreender elementos presentes nas ciências. O segundo momento, para a defesa da tese enunciada, direcciona-nos para a sociobiologia que é uma requintada ideologia do presente. A sociobiologia é uma ideologia que se encontra nos livros escolares e deste modo inicia a sua influência desde muito cedo na vida dos indivíduos, por sua vez esses manuais carregados de perigosas ideologias influenciam o nosso modo de estar e pensar. A sociobiologia surge sob a capa de uma universalidade, generaliza as características dos particulares de vários tempos. Esta ciência não valoriza o âmbito histórico e é esta ideia que Lewontin crítica. Mas a sociobiologia tem a vertente positiva de remeter o indivíduo para outras áreas de pensamento, não se remete só ao científico, o que permite que o indivíduo substitua a posição de acreditar pela de pensar.

O âmbito genético não pode ser analisado isoladamente, deve ser relacionado com outros âmbitos do nosso ambiente, o genético isolado não responde a todas as questões do nosso organismo, devido a uma série de factores externos que influenciam a nossa evolução. A ideia referida é que o estudo de um gene não pode ser universalizado, na medida em que não existem dois indivíduos iguais, com histórias iguais, cada indivíduo vive a sua vida consoante o ambiente e os seus gostos. Este aspecto da subjectividade dos gostos é importante para demonstrar a impossibilidade de se alcançar o gene responsável por alguma doença, comportamento.

Por último, no capítulo “Ciência como acção social” Lewontin acaba por reafirmar uma ideia anteriormente defendida, a simbiose entre genes e organismo. Para tal recorre a dois autores de vulto Darwin e Lamarck. O que se encontra até ao momento é uma defesa de que tudo o que o ser humano é está codificado no nosso ADN, e é isto que se deve refutar. Lamarck considera que o ambiente produz efeitos no nosso organismo, o que é perfeitamente entendido, Darwin defende a separação do organismo e ambiente, há uma influência indirecta. O mundo externo não é influenciado por nós, existe uma relação de causalidade, na medida em que os organismos criam os seus próprios ambientes e os ambientes criam os organismos. A relação entre organismo/gene com o ambiente é de complemento, existe uma partilha da evolução que ocorre, as transformações provocadas por ambiente e organismo decorrem no mundo físico e biológico. O âmbito genético é que possibilita as nossas características fisiológicas, anatómicas, no fundo o cérebro que caracteriza o indivíduo, e que possibilita a natureza social de cada um. Esta relação de cooperação que encontramos entre ambiente e organismo só pode ser entendida quando se “eliminam” os interesses individuais. A relação de cooperação, simbiose que encontramos acaba por acarretar problemas em diferentes domínios, como no domínio da política, social, cultural, como entender esta relação que determina em grande parte a nossa vida.

Neste capítulo existe uma frase que define bem o ponto defendido neste, o ser humano é um ser que não tem essência devido à sua constante construção. A evolução da história altera o nosso modo de estar na vida, o seu desenrolar.

R.Lewontin usa uma linguagem perceptível mas que esconde nas suas raízes os problemas que nos irão atormentar. Numa primeira fase julgamos ser de grande lucidez, mas após uma segunda leitura apercebemo-nos das problemáticas que daqui se retiram, a nível ético, moral, político. É necessário que o indivíduo desperte para as evoluções perigosas da Ciência. As questões abordadas levam-nos a reflectir no que tem vindo a acontecer na Ciência com o nosso consentimento, ainda que indirecto, a Ciência ganha terreno no âmbito da manipulação da nossa vida, personalidade, etc. O primeiro argumento de Lewontin, I capítulo, considero ser o mais frágil, mesmo não existindo uma proximidade entre indivíduos e ciência não deveria existir a possibilidade de sermos levados a falsas ideologias, em contraposição considero o III capítulo o mais forte, já que neste se identifica uma base errónea, a noção de causa, que acaba por ser a responsável das futuras ideologias falsas. Considero que este conceito é a chave de todo o erro que surge na Ciência, na medida em que se existe uma noção de causa errada então todos os outros conhecimentos que se relacionem com tal são errados. A noção considerada pela Ciência elimina o ambiente e esse é o grande erro.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Boa noite,
Este blog é para aqueles que gostam de Filosofia e também para aqueles que desejam aprender o que é a Filosofia. Sou estudante de mestrado em especialização de Filosofia Moderna e Contemporânea.
No meu blog vou escrever artigos de Filosofia, mas também puderei escrever, esporadicamente, artigos de outra natureza. Espero que gostem!!!!